segunda-feira, 13/03/2017

ainda verde

fruto ainda verde repousava no pé de não sei o que, encorpadas folhas proporcionavam luminosidade e sombra no ritmo da brisinha quase dançante. sentia a presença de alguns outros frutos no galho ao lado, maduros e graúdos de cor vibrante e aroma adocicado – azedinho.

queria ser, pensou. por horas deixou de ser para querer ser, até que fruto maduro com a brisinha quase dançante do pé soltou e no chão pleft… ainda verde resolveu que não queria mais ser, estava muito bem em maturação.

tanto quanto tarde demais, diria; curió ali pousou e de fruto maduro não era muito a fim, três ou quatro bicadas depois ainda verde desconfigurado ficou.

e da colheita? era fruto selvagem, tá tudo bem.

 

bruce bitter

quarta-feira, 28/12/2016

gratia

grande onda veio e me bateu ao peito como nenhuma maré antes ousara, os tempos verbais todos levaram um caldo. nessa agitação toda ao flutuar inconstantemente pelo vazio do tórax, encontrei o menino num barquinho feliz da vida içando velas e brincando de aventureiro. quanto mais a miúda embarcação do menino subia de água salgada o vazio se enchia e quando me dei conta na gargante ela se prendeu. sem ter pr’onde navegar, o menino começou nova aventura ao escalar e aos pés do ouvido chegou dizendo que mar aberto se tornara o peito.

não entendi direito o que o menino havia dito mas seguimos conversando por horas afinco. você não tem que voltar pro seu barquinho? encontrei abrigo seguro nos seus pensamentos, respondeu o menino; depois de muito tempo nos reencontramos e me parece que ele não vai embora tão cedo. fizemos uma fogueira no cantinho da mente e dormimos. ao amanhecer o menino me contou o sonho:

dentro do peito se fez mar aberto
onde barquinho ruma ao horizonte
turbulento ou tranquilo, apenas liberto
aprendeu que o amor não deve ser muro
mas sim
ponte.

bruce bitter

domingo, 25/12/2016

sem pre

boas novas chegaram quando tudo num turbilhão estava e o menino nem percebeu que caminhava pra neutralizar as inconsequências. a possibilidade de ter deixado passar existe, e é altíssima. ao mesmo tempo, as chances de colocar tudo em seu lugar também tão aí.

papai noel trouxe aquela resposta que aguardara há anos, o não.

mas, se papai noel não existe, como pode ter tanta certeza do presente?

pois sim, meu caro, o presente é esse mesmo, temporal.
bruce bitter

segunda-feira, 5/12/2016

mar aberto

dias cinzas sempre me saltaram aos olhos, os pequenos sopros do nublado no pé da nuca me confortam como nenhum dia ensolarado há de confortar.

até entendo essa gente que vibra num céu de brigadeiro, ao som dos pássaros ou no esmaecer do olhar ao encontro do sol. mas vibro mesmo é na personalidade rígida da cumulus nimbus rasgando os céus, no silêncio que a ausência dos pássaros introduz uma chuva e no seu olhar confuso sem entender direito as ilusões proporcionadas pelas gotinhas em seus óculos.

você já voou em dia cinza?

a incerteza da turbulência é assim, como voar em dias cinzas, estar com você.

 

bruce bitter

domingo, 4/12/2016

quando pulsa

o que me resta é escrever. escrever porque não falo, talvez. essa mudez seletiva me privou de muitos sofrimentos ao longo dos anos; tardou a falhar, mas falhou. falhou enquanto experimento do ser social.

mas será que falhou mesmo ou é só criação da cabeça pra justificar a constante vontade de não ser?

é comum isso, né?

quando a veia pulsa
num movimento, passa
o sangue por teus passos

e vai

inconsequente glóbulo
de uma ponta a outra
em alguns segundos

e vai?

 

bruce bitter

quarta-feira, 18/12/2013

forever to search for the flame

DANIEL

WHEN I FIRST SAW YOU

I KNEW THAT YOU HAD

A FLAME

IN YOUR HEART

a arquitetura do crânio humano é um tanto quanto excêntrica. se você parar pra analisar, a cabeça é uma redoma de cálcio que envolve a essência de todos os setenta quilos de homem que coexistem embaixo de si. certas cabeças me atraem mais ainda por conter uma essência tão complexa que chega a ser inimaginável caber em um potinho redondo com 20 centímetros de diâmetro. se a gente botar a matemática na jogada, quantos (unidade de medida de essência) cabem dentro de uma cabeça? qual o volume do crânio? sei lá, nunca me dei bem com matemática…

mas é claro que a essência dessas pessoas não fica só dentro da cabeça, é impossível caber tanta coisa ali dentro.

o artesão, por exemplo, também guarda grande parte de sua essência nas mãos e por meio delas joga sua marca no mundo. eu sempre gostei de cerâmica, mesmo sem prestar atenção. lembro de quando era criança, minha mãe tinha um vaso de flores (que, por sinal, nunca fizera morada a flor alguma) meio creme com algumas rachaduras aleatórias, era redondo e esguio sem possuir “forma definida”, eu gostava do jeito que ele se projetava na estante. na mesma época brincávamos de argila na pré-escola e, aos fins de semana, no barranco atrás da casa de minha avó. esses dias comprei alguns quilos de argila mas não consegui transpassar nada para o barro, falta essência em minhas mãos…

não consigo me lembrar pr’onde foi esse vaso, mas descobri recentemente que era queima de raku.

bruce bitter

terça-feira, 17/12/2013

estudo para piano 17

eu não gosto de escrever a lápis. a conveniência de poder apagar o que foi escrito me incomoda um pouco. o engraçado é que quando eu preciso tomar alguma decisão importante a inflexibilidade e permanência das palavras ditas não me soam confortáveis. se a coragem para falar fosse a mesma que ao escrever tudo me seria mais fácil. infelizmente não tenho esse mesmo enfrentamento com a palavra falada.

as andorinhas voltaram, mas eu ainda tô lá… por quê? ah, meu amigo, isso só o papel pode te contar…

bruce bitter

sexta-feira, 2/08/2013

mural

já inventei tanta coisa pra viver que desaprendi a inventar. consequentemente, viver.

 

bruce bitter

sexta-feira, 24/05/2013

sem querer

queria eu definhar numa pedra na praia do forte
virar um pedaço de limo
ficar quietinho e verdinho lá na pedra
vendo a água bater e ir embora
bater e ir embora
bater e ir embora
bater e ir embora
até deixar de existir

bruce bitter

segunda-feira, 20/05/2013

homocotiledônea desumana

plantei minha árvore na parede.

me aflige a espinha ao pensar em podá-la,

ou perder as raízes,

mas a aflição é necessária para a calmaria.

hei de fincar raízes ao meu redor

– ou em mim mesmo –

ainda que o solo não me permita.

bruce bitter

(homocotiledônea,  22 de janeiro de 2012)